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A morte nunca foi um mistério para Lélia. Sabia desde criança o ano em que todos ia morrer - não a data precisa, mas o suficiente para condensar a maior incerteza de uma existência em 365 dias. Percebeu o dom ainda pequena, na primeira vez em que olhou acima da testa de um adulto. Pairavam quatro algarismos sobre a cabeça de quem passava ao seu redor, quatro alvos e inocentes números, seguindo seus donos como se não houvesse pressa. A inocência da contagem só se desfez em um passeio pelo Centro, quando Lélia mirou por acaso um senhor que, apressado, atravessava a rua. Não conseguiu chegar ao outro lado, e ela nunca teve certeza se o que o atingiu primeiro foi o "1947", que despencou do ar para as costas do homem, ou se foi o carro do motorista imprudente, cego ao último pedestre. A tragédia lhe ensinou que todos estamos marcados, que mudança brusca alguma nos livraria daqueles quatro números, e pela primeira vez sentiu vontade de ver quais seriam os seus; ao olhar para cima, porém, não os encontrou.
Daquele dia em diante, tornou-se a melhor amiga nos últimos momentos, tanto dos que já exalavam a morte, como de quem a encontrava tão cedo, dos modos mais imprevisíveis. Não demorou para que o faro infalível a fizesse maldita, alcunhada como oportunista, pelos tantos testamentos em que se fez presente, ou dona da foice, pelas tantas mãos que segurou no último aperto. Era temida pelos jovens, abominada pelos de sua idade, e, por fim, rejeitada até pelos moribundos, esperançosos de que sua ausência garantir-lhes-ia mais alguns suspiros.
Lélia manteve o segredo - muito jovem aprendera que revelar sobre os quatro algarismos só fazia com que as dúvidas sobre sua boa-fé respingassem também em sua sanidade. Solitária, viu a morte chegar sorrateira aos que a ofendiam, muitos ainda novos e com filhos sem renda, mas a distância que lhe impunham a proibia de alertá-los. A sensação de impotência a derrubou aos poucos. Os gaiatos, quando se referiam à dona da foice, passavam as mãos pelos cabelos. Não sabiam que o trejeito cada vez mais adotado por Lélia era como buscava desesperada pelo ano de sua morte, cansada como estava de ver tantos indo embora sem poder se despedir. Tentou apressar seu fim; fez-se alvo de revólver e foi ao terraço de arranha-céus, mas um impulso sempre a fazia desistir, como se os seus números não pudessem ser enganados.
Tantos perigos que se propôs, todos vencidos, e a idade já avançada a fizeram crer que sua morte viria lenta. Não teria a rapidez de um suicida, mas o vagar das doenças misteriosas. Pensava nisso quando, uma tarde qualquer, foi cercada pelos gritos de "Dona Morte". Vinham de um grupo de rapazes, nenhum com mais de quinze anos, um ou dois já órfãos de pai. Corriam em sua direção, e Lélia teve de fugir, como correu dos pais daqueles meninos. E os ossos doíam a cada passo, e as costas lhe pediam arrego, e, por mais que houvesse anseado tantas vezes pelo fim, os olhos estavam arregalados, e respirava cada vez mais fundo, e a boca seca esforçava-se por pedir socorro, quando veio a pedra. E foi atingida não apenas esta vez, mas outras quatro, pois os quatro números lhe caíram pesadamente nas costas, como fizeram com o homem atropelado no Centro. E, enquanto os garotos corriam daquele beco deserto, acusando-se pelo momento de maior empolgação, Lélia esboçava um sorriso choroso. Sentia enfim a morte anunciada.
postado pelo seu candidato às 01:11 |
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