Renato Para Senador

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Este blog é o meu palanque. Aqui vocês vão saber um pouco mais sobre vida e obra (?) de um candidato ao Senado em 2022.

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wQuinta-feira, Março 15, 2007


Era uma tarde quieta como qualquer outra naquela locadora. Uma dúzia de pessoas circulava entre as estantes, detendo-se neste ou naquele cineasta. Ninguém reparou a entrada daquele casal, que tanto se esforçava para aparentar normalidade. Quase correram a uma prateleira; enquanto pegavam filmes disciplicentemente, para logo guardá-los com mais força do que o recomendável, retomavam uma conversa cortada lá fora. A primeira voz ouvida já denunciava um problema - rouca como se lhe faltasse água na garganta, mas aguda como a denúncia de que lágrimas estavam por vir.

- Eu me guardei por você, e é isso que eu mereço? - perguntava, balançando um Hitchcock.

A resposta foi um muchocho quase mudo; um bailado estratégico da seção de clássicos para seriados, um pouco mais ao fundo. A delicadeza do movimento foi vencida pela insistência da voz lacrimosa, que agora dedilhava uns CSIs: Miami, Nova Iorque, Alasca, o inferno. Choramingava recordações inteligíveis, que só tornavam os olhares em volta menos discretos. Uma senhora, parada em frente à estante dos "imperdíveis", definitivamente balançava a cabeça em reprovação àquele espetáculo.

- Eu nem olhei para o lado, quantas coisas deixei de viver, e tudo por você! - acusava a voz lacrimosa, agora balançando ameaçadoramente uma temporada de "Friends". - E enquanto eu esperava, você pulava a cerca! Isso é muito escroto!

O "escroto" transcrito acima, deve-se dizer, foi só o primeiro de uma série, que serviu de motivação e trilha sonora para todos os fatos que se transcorreram naquela locadora em que nada acontece. Uma mãe, inconformada, tirou o VHS do "Pato Donald" da mão de seu filho e lhe tapou os ouvidos, enquanto rumava para fora da loja. Escroto, escroto, escroto, escroto. A senhorinha dos "imperdíveis" agora protestava em voz alta, mas foi derrotada pelos estridentes "escrotos". Escroto, escroto, escroto, escroto. E a voz lacrimosa, antes tão carente de uma resposta, saiu desabalada pela rua. Deixou um lançamento com Al Pacino sobre o chão e todos os olhares a quem lhe respondera apenas com muchochos.

- Vocês me desculpem, mas meu namorado é muito sensível. Adora um drama - disse a mulher, empunhando alguma coisa da Bette Davis.

Pagou e foi embora, na direção oposta do homem de quem partira o coração.


postado pelo seu candidato às 20:43 |