Renato Para Senador

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Este blog é o meu palanque. Aqui vocês vão saber um pouco mais sobre vida e obra (?) de um candidato ao Senado em 2022.

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wSábado, Novembro 04, 2006


Queria saber como definiram a ordem das letras no teclado.

***


Genivaldo não é um nome, é uma praga. Até hoje, não conheci xará que não fosse porteiro ou pedreiro. Por isso, agradeço a Deus todos os dias por ser datilógrafo. Na maior parte do tempo, não tenho trauma por isso. É, pelo menos, uma boa profissão para se conhecer mulheres. Como se elas se importassem em me conhecer.

Não tive a melhor das infâncias. Genivaldo, no colégio, vira Geni. Joga pedra no Geni, ele é feito pra apanhar, ele é bom de cuspir. Nunca vi crianças para conhecerem tão bem a música do Chico como meus amigos na escola. Era sempre o que levava montinho, o que ficava pra trás na hora de tocar campainha e sair correndo, essas brincadeiras de moleque. Ouvi uns esporros, descabelei minha mãe, mas sobrevivi, e parte da minha auto-estima sobreviveu aos poucos amigos e à abstinência que cultivei durante a adolescência.

Estou em minha segunda namorada. A primeira durou o quê? Nove meses? Por aí. Lorena, uma atriz, ruivinha, até que em forma, e muito performática. É mal da profissão. Nunca a vi atuando, embora, durante o namoro, ela tivesse feito duas peças. Mas não devia ser boa atriz, porque adorava dizer que estava investindo na carreira musical. Entenda essa expressão da seguinte forma: Lorena cantava sempre que estava respirando, e de meia em meia hora abria os braços extasiada e gritava que a música era a vida dela. Já estava ficando meio puto, quando ela resolveu piorar cantando durante o sexo. Ia de Milton Nascimento a Tribalistas, mas, não importa o repertório, ficava invariavelmente desconcentrado. Vai gozar ouvindo Rouxinol. Vai gozar ouvindo Velha infância. Um dia, enlouquecido com aquela voz aguda, com aquela criatura que não sabe ao que se dedica, à boca ou à perseguida, gritei: porra, parece que tô trepando com um canário. Me olhou com raiva ¿ por um momento achei que fosse me dar um tapa, mas não bateu ¿ e foi embora, sem gozar ou dizer adeus.

Fiquei um longo e tenebroso biênio sem comer ninguém. O jejum acabou na festa de um amigo de amigo, quando conheci Dalva. Com esse nome, só podia ser secretária. Ficamos algum tempo conversando sobre nossas profissões. Não muito, porque não há nada de excitante em ser datilógrafo ou secretária. Já entrávamos naquele vazio constrangedor quando ela falou, mais pra dentro do que pra mim:

- Queria saber como é que foi definido o lugar de cada letra no teclado.

Mirei espantado aqueles olhos amendoados, que confessaram uma dúvida que, por 25 anos, achei ter sido só minha. Vi a inocência sincera de Dalva, aquele jeitinho indeciso de quem sabe encantar, e pensei: acho que essa aí eu consigo pegar.

Estou até hoje com ela. Dalva nunca canta, posso até broxar sem ter medo de ouvir a sonata de Beethoven. Mas ela morde e, volta e meia, no meio dos amassos, deixa a mão cair pesadamente nas minhas costas. Lembro do Geni que era no colégio e não gosto. Sinto vontade de largá-la. Não posso fazer isso. Quantas ficariam com um Genivaldo?

Não perdi a mania de entrar em salas de bate-papo. Mas, agora que sou adulto, extravago minhas ironias em íntimos desconhecidos. Antes tinha apelidos que remetiam à virilidade. Agora, sou simplesmente Texugo.

(23:10:20) Texugo (reservadamente) fala para lele-msn: oi, quer tc?
(23:16:43) lele-msn (reservadamente) fala para Texugo: ???

Esta era geralmente a resposta. Um dia, uma delas me perguntou o que era texugo. Respondi, e por oito minutos não recebi sinal de vida. Quando já dava a nova amiga como perdida, ela me responde que não quer mais conversar, porque certamente um texugo doeria muito. Fiquei dois dias me divertindo, pensando onde a garota teria imaginado o texugo. Nem as mordidas de Dalva doíam quando ria sozinho com minhas sacanagens. Resolvi procurar a lele novamente.

(00:18:25) Texugo indolor entra na sala...

Mas nunca mais a encontrei.


postado pelo seu candidato às 14:33 |