 |
 |

Washington do Carmo já viu o mundo acabar três vezes. Largou a vida sem perspectivas no interior da Bahia pelo trabalho de pedreiro no Rio das Pedras, em Jacarepaguá. Uma enchente destruiu seu barranco, obrigando-o a, mais uma vez, começar do zero. No Dia dos Pais, Washington, pai de sete filhos, viu tudo mudar pela terceira vez.
Teve dez minutos entre o início do fogo e a rua principal, para onde carregou as crianças e a TV que assistia antes do incêndio. Roupas, só as do corpo. O pedreiro correu entre os becos carbonizados e fiações desmanchadas pelo fogo com a experiência de quem vive há 18 anos no Rio das Pedras. Não pensou em nada. Deixou os medos da morte para a mulher, que corria logo atrás, e outras 400 famílias.
No dia seguinte ao incêndio, moradores andavam desolados pelos escombros e contavam que nem tudo queimou no conjunto Areal II. Muito do que sumiu - dinheiro, aparelhos eletrônicos e comida - foi saqueado por quem encontrou as casas quase destruídas.
- Eu tenho um sapato pra te dar, mas é 38. Não sei se cabe nas suas crianças. Serve?
A voluntária está quase ajoelhada em frente à Washington, que descansa em seu novo lar: um colchão sob a lona de circo, a 200 metros do antigo barraco. Washington agradece pelos calçados. Desde a madrugada, quando se alojou naquele gramado, já ganhou comida, roupas, travesseiro e cobertores. É o início de sua nova casa.
- Não adianta voltar para o Nordeste. Vim ao Rio atrás de estabilidade. Já perdi tudo antes e consegui me reerguer. Agora vou fazer o mesmo.
Washington conseguiu folga no trabalho. Na mente ociosa, o jejum de mais de 16 horas parece ainda maior. A alguns metros, o pastor de uma igreja local prepara dois panelões de sopa de legumes com carne moída. No jantar, o cardápio será o mesmo.
Os filhos, como boa parte das crianças do Rio das Pedras, não foram à escola e estão à sombra da lona brincando com o pai. Do outro lado da rua, perto de onde tudo terminou, outros meninos misturam-se com adultos e, para desespero dos funcionários da Light, roubam os fios arrancados da fiação irregular. Correm descalços no chão quente procurando os pais e pensando no dinheiro que virá com o cobre. No Rio das Pedras, de calor impassível e inúteis cordões de isolamento, a vida sempre recomeça.
postado pelo seu candidato às 23:02 |
|
 |