Renato Para Senador

Renato Para Senador
Este blog é o meu palanque. Aqui vocês vão saber um pouco mais sobre vida e obra (?) de um candidato ao Senado em 2022.

Orkut (perfil)



Podres passados


-- HOME --



Coleguinhas
Calvin e Haroldo
Cosentino
Escreve Escreve
Leis de Murphy
Menina Tediosa
Mundo Estranho
Níquel Náusea
Peida Não (flog)
R2D2 (flog)
Ricardo Noblat
Rocket Queen (flog)
Rubens Diz
Sem Sumário
Vale Nada
Xingatório da Imprensa


This page is powered by Blogger. Why isn't yours?
wSegunda-feira, Agosto 14, 2006


Washington do Carmo já viu o mundo acabar três vezes. Largou a vida sem perspectivas no interior da Bahia pelo trabalho de pedreiro no Rio das Pedras, em Jacarepaguá. Uma enchente destruiu seu barranco, obrigando-o a, mais uma vez, começar do zero. No Dia dos Pais, Washington, pai de sete filhos, viu tudo mudar pela terceira vez.

Teve dez minutos entre o início do fogo e a rua principal, para onde carregou as crianças e a TV que assistia antes do incêndio. Roupas, só as do corpo. O pedreiro correu entre os becos carbonizados e fiações desmanchadas pelo fogo com a experiência de quem vive há 18 anos no Rio das Pedras. Não pensou em nada. Deixou os medos da morte para a mulher, que corria logo atrás, e outras 400 famílias.

No dia seguinte ao incêndio, moradores andavam desolados pelos escombros e contavam que nem tudo queimou no conjunto Areal II. Muito do que sumiu - dinheiro, aparelhos eletrônicos e comida - foi saqueado por quem encontrou as casas quase destruídas.

- Eu tenho um sapato pra te dar, mas é 38. Não sei se cabe nas suas crianças. Serve?

A voluntária está quase ajoelhada em frente à Washington, que descansa em seu novo lar: um colchão sob a lona de circo, a 200 metros do antigo barraco. Washington agradece pelos calçados. Desde a madrugada, quando se alojou naquele gramado, já ganhou comida, roupas, travesseiro e cobertores. É o início de sua nova casa.

- Não adianta voltar para o Nordeste. Vim ao Rio atrás de estabilidade. Já perdi tudo antes e consegui me reerguer. Agora vou fazer o mesmo.

Washington conseguiu folga no trabalho. Na mente ociosa, o jejum de mais de 16 horas parece ainda maior. A alguns metros, o pastor de uma igreja local prepara dois panelões de sopa de legumes com carne moída. No jantar, o cardápio será o mesmo.

Os filhos, como boa parte das crianças do Rio das Pedras, não foram à escola e estão à sombra da lona brincando com o pai. Do outro lado da rua, perto de onde tudo terminou, outros meninos misturam-se com adultos e, para desespero dos funcionários da Light, roubam os fios arrancados da fiação irregular. Correm descalços no chão quente procurando os pais e pensando no dinheiro que virá com o cobre. No Rio das Pedras, de calor impassível e inúteis cordões de isolamento, a vida sempre recomeça.


postado pelo seu candidato às 23:02 |