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Era um desses bairros de classe média, em que as tardes modorrentas são preenchidas por vassouras e compenetradas máquinas de lavar. Os donos dos apartamentos estão no Centro; alguns peregrinam em suas casas fugindo do tédio e do aspirador, enquanto bocejam com a reprise da novela exibida pela Globo seis meses atrás. Os ponteiros do relógio na parede hesitam em mover-se, como se o tique-taque fosse um desrespeito ao silêncio litúrgico de vidas cheias de hiatos. Só Beth corta o ar parado, as sandálias resolutas em direção à varanda, vestido manchado por duas ou três lágrimas que não sabem a que vieram. Choraminga alguma coisa difícil de entender, mas que chega aos ouvidos dos vizinhos, todos ansiosos para mais um espetáculo.
Agarrada a uma pilastra, Beth tremula sobre o parapeito de sua varanda. Quatro andares a separam de um fim trágico. Jorge Augusto, enfim, entra em cena. Balbucia frases freitas e, fiel ao seu tique, abre e fecha as mãos esticadas, como se pedisse ajuda para entender as lamúrias da esposa nervosa.
- Alá, ó! Alá!, aponta Joana, diarista do prédio da frente, espectadora fiel dos escândalos alheios. Aqueles não atraídos pelos urros de Beth, a voz de fígaro da doméstica tratava de seduzir. Sorridente, desfiava comentários à platéia animada, que só faltava aplaudir a locutora oficial dos pesadelos matrimoniais.
- Dá um sapato novo pra madame! Dá sapato!, gritava. Lembrou à Maria, empregada do vizinho, que, da última vez, Beth só desistiu do suicídio ao ganhar um microondas. Em outra ocasião, um vestido - logo este vermelho com que tentava se matar.
Jorge Augusto e Beth, indiferentes à multidão, continuavam encenando o drama. Esta era a parte em que Beth balançava insistentemente a cabeça, tapando os olhos com os cabelos cacheados, enquanto o marido a oferecia qualquer coisa pra sair dali. Pipocava a lista de mimos com súplicas, pelo-amor-de-Deuses e seu vocativo preferido, "ternura". Era o auge para a vizinhança, o bordão de programa humorístico, o ápice da gargalhada de Joana. "Ternuraaaa, ternuraaa!", repetiam.
- Não dá nada não, ela te trai! Ela te faz de corno manso!, berrava a diarista, aumentando as futricas de patroas e moças de avental. Os homens ensaiavam um coro. Queriam uma resposta viril - porrada, porrada, porrada.
Jorge Augusto, autista aos deboches, promete de joelhos mundo novo, atenção, as Casas Bahia, tudo à musa escandalosa. Beth, enfim, concorda em desistir do atentado, o rosto já seco com as juras consumistas. Os prédios ao redor lamentam o fim do drama. O casal desaparece atrás das cortinas de veludo, que anunciam o início da sala de estar. Joana, ainda sorrindo, vai varrer a copa.
postado pelo seu candidato às 22:42 |
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