Renato Para Senador

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Este blog é o meu palanque. Aqui vocês vão saber um pouco mais sobre vida e obra (?) de um candidato ao Senado em 2022.

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wDomingo, Maio 28, 2006


Se quiser cair no mundo
Ou tentar morrer de amores
Precipite-se

Não existe lugar para nós dois. Movemo-nos acotovelando o ordinário. Todos os corredores são estreitos para que a diferença não possa passar. Poços e poças enfeiam o caminho de quem não quer seguir trilhas. E os passivos, esses de olhos ocos e costas fatigadas, escravos da ordem cega e de uma vida sem paixões, esses, querida, venderão nossas almas logo depois de nos dar um sorriso afável. Não ouça música que não venha de você. Contra seu amor não há venenos, disse-me-disses, teorias de gaveta ou certo e errado. Foda-se o certo e o errado. Estamos além de maniqueísmos, somos profetas da nova ordem, os anjos que anunciam o apocalipse. Dê-me beijos hereges, apunhale-me com o que não deve ser dito. Não vamos contra a corrente, pois inventamos uma nova, onde o medo é indefinível, por ser inexistente. Afunde a geometria, este mundo de quadrados e triângulos, e abra as portas ao abstrato, afunde-se dentro do que vale a pena.

Por isso
Só disso
Manifesto


postado pelo seu candidato às 14:45 |


wSegunda-feira, Maio 15, 2006


Era um desses bairros de classe média, em que as tardes modorrentas são preenchidas por vassouras e compenetradas máquinas de lavar. Os donos dos apartamentos estão no Centro; alguns peregrinam em suas casas fugindo do tédio e do aspirador, enquanto bocejam com a reprise da novela exibida pela Globo seis meses atrás. Os ponteiros do relógio na parede hesitam em mover-se, como se o tique-taque fosse um desrespeito ao silêncio litúrgico de vidas cheias de hiatos. Só Beth corta o ar parado, as sandálias resolutas em direção à varanda, vestido manchado por duas ou três lágrimas que não sabem a que vieram. Choraminga alguma coisa difícil de entender, mas que chega aos ouvidos dos vizinhos, todos ansiosos para mais um espetáculo.

Agarrada a uma pilastra, Beth tremula sobre o parapeito de sua varanda. Quatro andares a separam de um fim trágico. Jorge Augusto, enfim, entra em cena. Balbucia frases freitas e, fiel ao seu tique, abre e fecha as mãos esticadas, como se pedisse ajuda para entender as lamúrias da esposa nervosa.

- Alá, ó! Alá!, aponta Joana, diarista do prédio da frente, espectadora fiel dos escândalos alheios. Aqueles não atraídos pelos urros de Beth, a voz de fígaro da doméstica tratava de seduzir. Sorridente, desfiava comentários à platéia animada, que só faltava aplaudir a locutora oficial dos pesadelos matrimoniais.

- Dá um sapato novo pra madame! Dá sapato!, gritava. Lembrou à Maria, empregada do vizinho, que, da última vez, Beth só desistiu do suicídio ao ganhar um microondas. Em outra ocasião, um vestido - logo este vermelho com que tentava se matar.

Jorge Augusto e Beth, indiferentes à multidão, continuavam encenando o drama. Esta era a parte em que Beth balançava insistentemente a cabeça, tapando os olhos com os cabelos cacheados, enquanto o marido a oferecia qualquer coisa pra sair dali. Pipocava a lista de mimos com súplicas, pelo-amor-de-Deuses e seu vocativo preferido, "ternura". Era o auge para a vizinhança, o bordão de programa humorístico, o ápice da gargalhada de Joana. "Ternuraaaa, ternuraaa!", repetiam.

- Não dá nada não, ela te trai! Ela te faz de corno manso!, berrava a diarista, aumentando as futricas de patroas e moças de avental. Os homens ensaiavam um coro. Queriam uma resposta viril - porrada, porrada, porrada.

Jorge Augusto, autista aos deboches, promete de joelhos mundo novo, atenção, as Casas Bahia, tudo à musa escandalosa. Beth, enfim, concorda em desistir do atentado, o rosto já seco com as juras consumistas. Os prédios ao redor lamentam o fim do drama. O casal desaparece atrás das cortinas de veludo, que anunciam o início da sala de estar. Joana, ainda sorrindo, vai varrer a copa.


postado pelo seu candidato às 22:42 |