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Podres passados |
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wQuinta-feira, Abril 27, 2006 |
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- E agora?
- Agora é só clicar duas vezes sobre o nick dela e começar a falar.
- Sobre quem?
- Sobre o nick. Nick é o apelido.
- Ah bom, pensei que era um cara.
- Não, Beto. Se liga... essa menina é bem mais nova que você, então você tem que parecer moderninho, entendeu?
- Entendi.
- Nada de ficar teclando bonitinho, de demorar procurando a letra. Tem que ser rápido. Pá, pum.
- Pá, pum. Entendi.
- Conforme você for escrevendo, eu vou dizendo as siglas. Aí, ela já começou a falar com você.
- Ah, é essa janelinha aqui brilhando?
- Isso. Põe o mouse aí embaixo pra gente começar a falar.
- A setinha?
- É. Põe ela aqui.
- "Oi, tê dê bê éle zê". Marco, não entendi nada.
- É "Oi, tudo beleza?"
- Ah. bê éle zê é beleza? Como é que eu respondo? Tê dê?
- Tê dê ou tê bê, tanto faz.
- Tê bê por quê?
- Tê bê é também. Aí ou você põe tê bê ou bê éle zê. De qualquer forma, tá tudo bê éle zê pra você também, entendeu?
- Ih, tem uma sigla que a minha filha ensinou que eu posso usar também, e que parece mistura disso. Tê dê bê.
- Tê dê bê?
- Tudo de bom.
- Ah, Marco. Tê dê bê não. Sigla de boiola.
- É?
- É, boiola. Manda logo um tê dê. Põe também um "e vê cê?"
- Vê cê é você?
- Isso.
- Pronto. Aí, ela já respondeu. "Nun cá stive tão bem"
- Nunca estive tão bem.
- Eu sei, essa não é difícil. Mas como é que eu ponho olhar cético?
- Olhar cético?
- É. Só pra provocar. Aí já serve pra puxar assunto e saber por que ela nunca esteve tão bem.
- Ah, tá. É "o" minúsculo e "O" maiúsculo, sem espaço.
- Bolinha bolão?
- Isso. Esse é o "olhar boladão". Ih, caramba.
- Quê?
- Você esbarrou em outra letra. Ficou bolinha, "i", bolinha. Ih, cacete.
- Quê? Que que tem, Marco?
- Pô, cara. Olha esse desenho. oio. Não te lembra nada?
- Não, que que tem que lembrar?
- Você acabou de mostrar o cacete pra menina.
- Eu?? Por quê?
- Olha isso. Testículo, pinto, testículo. E pior.
- Pior por quê?
- Assumiu que tem pinto pequeno. Se tivesse grande, o "i" seria maiúsculo.
- Ih, cacete.
- Cacete mesmo. Olha aí, ela respondeu.
- "Vê tê êne cê".
- Vai tomar naquele lugar.
- Vai você!
- Não, não fui eu. Foi isso que ela escreveu, é a sigla.
- Mas que menina é essa, que mal me conhece e já me manda praquele lugar?
- Pudera, né, Beto. Você sai por aí mostrando o cacete.
- Porra, nunca pensei que tivesse sigla pra isso.
- Pois é, e agora nem tenta consertar. Ela já teve ter fechado a janela e te bloqueado. Perdeu.
- Não dá nem pra mandar o olhar boladão?
- Acho que não, cara. Mas você foi bem, você foi bem. Da próxima vez, fica mais esperto.
- Pata que pariu, filha da pemba...
- Pê quê pê, éfe dê pê.
- Que isso?
- "Pata que pariu, filha da pemba"
- Ah... posso praticar mandando pra esse cara?
- Pode, ué. Tem que abrir a janelinha. Clica duas vezes no nick.
- Em quem?
- Porra...
postado pelo seu candidato às 14:18 |
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wSábado, Abril 15, 2006 |
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Ajeitava a toalha multicolorida com cuidado, no centro um chapéu a postos para qualquer troco. O saxofone balançava perto de seu peito murcho. À mesma altura, nas costas, o cabelo rastafari, primeira visão de quem descia aqueles três ou quatro degraus, provocava a surda indignação de uma senhorinha. Virou-se para mim, chicoteando as trancinhas para trás, o sorriso levantando os óculos escuros.
Saudou-me como a um velho amigo. Desarmei a caneta, presa nas espirais do bloquinho, e sentei-me em frente ao seu escritório improvisado no chão de pedra. Não sei se foram os gritos de boas-vindas ou os primeiros acordes, mas logo vieram dois caras e três chopes, a bebida sobressalente servida ao meu entrevistado. Bebericou moleque e exaltou os companheiros. "Esses aí são foda!". Aproveitei quando chegou mais perto, talvez para endireitar o chapéu, e perguntei o nome dos amigos de copo. "Cê sabe que eu não sei?", sussurrou.
Logo a dupla sumiu entre as barraquinhas. "O que você quer saber?". Tudo. Indaguei sobre as idas ao Jô Soares (três, ao todo), o saxofone (presente do Gordo), onde morava (na Senador Câmara), quanto ganhava (nem a mulher dele sabe). Era um personagem para a matéria do centenário da Rio Branco. Envaideceu-se por representar a avenida, disse que ela ficou mais bonita com sua presença.
Entre uma e outra resposta, levantava os dedos e puxava notas. Tinha uma melodia para as gostosas. Sempre que uma passava, atacava de A pantera cor de rosa. Não era muito seletivo. Uma cinqüentona de ancas generosas ganhou Your latest trick, emendada por dentes amarelos e orgulhosos: "É Daire Strêits".
Também contava causos.
- Sabia que eu conheci o Tim Maia?
- Ah, é?
- É. Um dia ele foi gravar e eu tava no estúdio do lado. Ele foi até mim e perguntou: "Cê fuma?". Aí eu: "Fumo". Aí ele: "Me empresta a seda?"
- Ah.
- Até gravou comigo.
- Ah.
Cesar Maia encabeça sua lista negra. Andou com o então candidato a prefeito do Leme ao Leblon e não ganhou um puto sequer. Reclamou da violência, que espanta seus admiradores. Quem dá dinheiro pra sua música já vem com as moedinhas na mão, com medo de parar e ser assaltado. Falou muito e me perguntou o que mais queria saber.
Nada. Guardo a caneta entre os espirais do bloquinho, aperto a mão áspera e desapareço entre a multidão das cinco horas. Ando até o Theatro Municipal e, enquanto espero um táxi, penso em quanto daquela conversa vai entrar na matéria.
Jornalismo é cortar pessoas. Entre toques e tesouras, sobram apenas dramas.
Devia, ao menos, ter pedido um chope.
postado pelo seu candidato às 18:55 |
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