Renato Para Senador

Renato Para Senador
Este blog é o meu palanque. Aqui vocês vão saber um pouco mais sobre vida e obra (?) de um candidato ao Senado em 2022.

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wTerça-feira, Abril 22, 2008


Rumo à praia, 49 na Paulo Alves
Brimful of Asha nos ouvidos
Pés esticados, olhares para a praça
Sento de qualquer jeito, a roupa pode amassar
Eu e ela estamos livres por hoje

Vento à vontade pela janela aberta
Faz o mar rebolar, faz a alegria
Dos que trocam livros por pranchas
E riscam e cortam ondas em busca
Da mais sublime despreocupação

There's dancing behind movie scenes
Behind the movie scenes

Livros repousam na areia amedrontada
Com o mundo azul que avança aos soluços
Brilha soberano o sol, que ilumina
As correntes metálicas das bicicletas
O suor de quem trabalha ou descansa
Desfaz carrancas de terça-feira
E nós de gravatas estampadas vermelhas
E só se desfaz diante do encanto
Voluptuoso do invencível lacinho de biquíni
Só ele explica a sensualidade tropical
E os freqüentes torcicolos masculinos

She's the one that keeps the dream alive
From the morning past the evening
To the end of the line

Passam pessoas pasmas
A praia é o espaço do surreal
Assim é o azul da cor do mar
O preço da água de coco
A existência de cursinhos de frescobol
Quem nunca quis jogar frescobol?
A praia é o momento do espaço
Os invejosos dos à-toa prometem
Tomar seus lugares nos fins de semana
Tolice. São Pedro não permite
Sábado e domingo sempre chega frente fria
A praia é o espaço do momento

We don't care about no government war
About the promotion of the simple life
And the dams they're bulding

E no fim do dia, o sol é carne crua
Desce devagar, como praianos sem pressa
Despede-se coberto de nuvens
Como se vê-lo fosse privilégio demais
Elas,as nuvens, refletem o prateado da lua
Recém-saída sabe-se lá de onde
Disposta a decretar o fim da festa
E o bom praiano entende o recado
Não tem importância, voltará amanhã
E dá as costas para o mar sussurrante
- já morrendo de saudades -
E prepara-se para voltar à selva de pedra
Antes só lhe falta a última missão:
Lembrar onde pôs os malditos livros

postado pelo seu candidato às 00:10 |


wQuarta-feira, Janeiro 02, 2008


A morte nunca foi um mistério para Lélia. Sabia desde criança o ano em que todos ia morrer - não a data precisa, mas o suficiente para condensar a maior incerteza de uma existência em 365 dias. Percebeu o dom ainda pequena, na primeira vez em que olhou acima da testa de um adulto. Pairavam quatro algarismos sobre a cabeça de quem passava ao seu redor, quatro alvos e inocentes números, seguindo seus donos como se não houvesse pressa. A inocência da contagem só se desfez em um passeio pelo Centro, quando Lélia mirou por acaso um senhor que, apressado, atravessava a rua. Não conseguiu chegar ao outro lado, e ela nunca teve certeza se o que o atingiu primeiro foi o "1947", que despencou do ar para as costas do homem, ou se foi o carro do motorista imprudente, cego ao último pedestre. A tragédia lhe ensinou que todos estamos marcados, que mudança brusca alguma nos livraria daqueles quatro números, e pela primeira vez sentiu vontade de ver quais seriam os seus; ao olhar para cima, porém, não os encontrou.

Daquele dia em diante, tornou-se a melhor amiga nos últimos momentos, tanto dos que já exalavam a morte, como de quem a encontrava tão cedo, dos modos mais imprevisíveis. Não demorou para que o faro infalível a fizesse maldita, alcunhada como oportunista, pelos tantos testamentos em que se fez presente, ou dona da foice, pelas tantas mãos que segurou no último aperto. Era temida pelos jovens, abominada pelos de sua idade, e, por fim, rejeitada até pelos moribundos, esperançosos de que sua ausência garantir-lhes-ia mais alguns suspiros.

Lélia manteve o segredo - muito jovem aprendera que revelar sobre os quatro algarismos só fazia com que as dúvidas sobre sua boa-fé respingassem também em sua sanidade. Solitária, viu a morte chegar sorrateira aos que a ofendiam, muitos ainda novos e com filhos sem renda, mas a distância que lhe impunham a proibia de alertá-los. A sensação de impotência a derrubou aos poucos. Os gaiatos, quando se referiam à dona da foice, passavam as mãos pelos cabelos. Não sabiam que o trejeito cada vez mais adotado por Lélia era como buscava desesperada pelo ano de sua morte, cansada como estava de ver tantos indo embora sem poder se despedir. Tentou apressar seu fim; fez-se alvo de revólver e foi ao terraço de arranha-céus, mas um impulso sempre a fazia desistir, como se os seus números não pudessem ser enganados.

Tantos perigos que se propôs, todos vencidos, e a idade já avançada a fizeram crer que sua morte viria lenta. Não teria a rapidez de um suicida, mas o vagar das doenças misteriosas. Pensava nisso quando, uma tarde qualquer, foi cercada pelos gritos de "Dona Morte". Vinham de um grupo de rapazes, nenhum com mais de quinze anos, um ou dois já órfãos de pai. Corriam em sua direção, e Lélia teve de fugir, como correra dos pais daqueles meninos. E os ossos doíam a cada passo, e as costas lhe pediam arrego, e, por mais que houvesse anseado tantas vezes pelo fim, os olhos estavam arregalados, e respirava cada vez mais fundo, e a boca seca esforçava-se por pedir socorro, quando veio a pedra. E foi atingida não apenas esta vez, mas outras quatro, pois os quatro números lhe caíram pesadamente nas costas, como fizeram com o homem atropelado no Centro. E, enquanto os garotos corriam daquele beco deserto, acusando-se pelo momento de maior empolgação, Lélia esboçava um sorriso choroso. Sentia enfim a morte anunciada.


postado pelo seu candidato às 01:11 |


wTerça-feira, Dezembro 04, 2007


Aconteceu no pedágio. Ela me perguntou se, por favor, poderia aumentar a música enquanto pegava meu troco. Foram sessenta longos centavos. Deu tempo para me dizer que era a música de seu noivado. Eles foram para o Guarujá. Dei, mais tarde, um sorriso de superioridade. Eu a teria levado a um lugar melhor. Motivado a ouvir novas confidências, voltava sempre àquela cabine, trazendo a mesma música. Os sorrisos ainda eram tímidos, os olhos quase não batiam com os meus, eram os modos de menina pobre ensinada a não encarar. Só me viu, e de boca aberta, quando voltei com outra música, e disse que era a nossa música.

O jantar veio dois dias depois. Foi estranho vê-la e não lhe dar dinheiro. Caminhava indecisa em um salto que parecia maior que seus pés. Gostei de seus pés. Na cabine, só via dos peitos pra cima. Os peitos, estes sim, estavam altivos. Miravam alguma coisa que o corpo titubeava para encontrar. Tentei admirá-los disfarçadamente, mas, no meio do caminho, seus olhos encontraram os meus. Ela sorria enquanto cantava nossa música. Cantava errado, mais nãnãnã do que a letra, porque quase não sabia inglês. Ela arranhava minhas costas enquanto abraçava apertado. E sussurrava sonhos de que sentava no banco do carona, e não na cabine do pedágio. Ela buscava meu rosto baixo como se cobrando promessas. Ela, que me cobrava três e quarenta todos os dias, agora queria mais do que cabe em uma carteira.

Parei na cabine ao lado no dia seguinte. Esta quase não tinha peito, mas era loura. Disse a ela que aquela era a nossa música. Ela parou, enquanto separava os sessenta centavos.


postado pelo seu candidato às 18:23 |


wDomingo, Setembro 02, 2007


Papel carbono

Ela reclama de minha fraca memória.
Falo alguma coisa, escuto, mas não guardo.
Juro que escuto, a deficiência não é auditiva.
É que não encontro um local seguro para guardar.

Há muito tempo deixei
de ser um esconderijo confiável.


Papel carbonizado

Ela não reclama de minha fraca memória.
Agradece quando esqueço para aperfeiçoar a história.
Agradece porque nunca será repetitiva para mim.
Estou sempre interessado quando sua vez emudece.

Ela perdoa homens sem memória,
mas não perdoa homens sem imaginação.

(Não é meu. Só quis guardar num lugar seguro).

postado pelo seu candidato às 23:11 |


wDomingo, Julho 01, 2007


Gente minimalista me irrita.

Essa gente que só conhece frases curtas, fotos cortadas em ângulos estranhos, que tentam transformar joelhos ou cotovelos em algo erótico. E também essa gente que se acha Aurélio e desfila palavras bizarras, é um tal de usufruir, abnegar e escalopinho, que porra é essa; e também os eufóricos por expressões antigas, os que gritam "pata choca! pata choca!" enquanto perseguem a irmã mais nova. E também vascaínos - vascaínos me irritam, time ruim, gente chata - e também judeus e antisemitas, porque um não vive sem o outro, e também correntistas do Itaú, principalmente aqueles que fazem no ar aquela arroba que, na verdade, tem um "i" no meio. Mania desse povo de se achar dentro de propaganda. E também noveleiros, aquela gente que vê Tony Ramos e Glória Pires trabalhando juntos pela enésima vez, e também todo mundo que chama o Manoel Carlos de Maneco, principalmente os que moram no Leblon. O Leblon me irrita. E também aquela mania de Ipanema de só dizer o primeiro nome da rua, ah, vou na Vinicius, vou aqui, vou ali, vou na Farme. Também me irrito com o "alguma coisa". Sujeito passa por você, quer ser educado, cumprimenta, te atrasa e no final propõe: "Vamo marcar alguma coisa". Alguma coisa o quê, cara pálida? Nem queria te ver e ainda vou ter que existir ameaçado com a possibilidade de, um dia, você me ligar pra marcar "alguma coisa"? E também me irrita todo mundo que tenta me adivinhar. Sabe, quando alguém começa assim: "Aposto que você...". Não quero saber do resto, perdeu a aposta, vai passando uma moedinha. E o "Por que você tá tão"? Esse irrita muito. "Por que você tá tão irritado? E por que isso? E por que aquilo?". Olha, não que eu queira me eximir da responsabilidade, mas se eu tô tão irritado, libertino ou com rinite, provavelmente a culpa é sua. Mania de ficar bancando o Freud. E também irrita esse povo que lê e acha que tudo o que você escreve é sobre você. "Cruzes" - "cruzes" já irrita, olha a palavra velha - "como você tá mal humorado". Não, não tô, era só pra escrever um pouco. Não precisa se assustar, dá um sorriso. Sorriu? Agora some da minha frente.


postado pelo seu candidato às 19:38 |


wQuinta-feira, Março 15, 2007


Era uma tarde quieta como qualquer outra naquela locadora. Uma dúzia de pessoas circulava entre as estantes, detendo-se neste ou naquele cineasta. Ninguém reparou a entrada daquele casal, que tanto se esforçava para aparentar normalidade. Quase correram a uma prateleira; enquanto pegavam filmes disciplicentemente, para logo guardá-los com mais força do que o recomendável, retomavam uma conversa cortada lá fora. A primeira voz ouvida já denunciava um problema - rouca como se lhe faltasse água na garganta, mas aguda como a denúncia de que lágrimas estavam por vir.

- Eu me guardei por você, e é isso que eu mereço? - perguntava, balançando um Hitchcock.

A resposta foi um muchocho quase mudo; um bailado estratégico da seção de clássicos para seriados, um pouco mais ao fundo. A delicadeza do movimento foi vencida pela insistência da voz lacrimosa, que agora dedilhava uns CSIs: Miami, Nova Iorque, Alasca, o inferno. Choramingava recordações inteligíveis, que só tornavam os olhares em volta menos discretos. Uma senhora, parada em frente à estante dos "imperdíveis", definitivamente balançava a cabeça em reprovação àquele espetáculo.

- Eu nem olhei para o lado, quantas coisas deixei de viver, e tudo por você! - acusava a voz lacrimosa, agora balançando ameaçadoramente uma temporada de "Friends". - E enquanto eu esperava, você pulava a cerca! Isso é muito escroto!

O "escroto" transcrito acima, deve-se dizer, foi só o primeiro de uma série, que serviu de motivação e trilha sonora para todos os fatos que se transcorreram naquela locadora em que nada acontece. Uma mãe, inconformada, tirou o VHS do "Pato Donald" da mão de seu filho e lhe tapou os ouvidos, enquanto rumava para fora da loja. Escroto, escroto, escroto, escroto. A senhorinha dos "imperdíveis" agora protestava em voz alta, mas foi derrotada pelos estridentes "escrotos". Escroto, escroto, escroto, escroto. E a voz lacrimosa, antes tão carente de uma resposta, saiu desabalada pela rua. Deixou um lançamento com Al Pacino sobre o chão e todos os olhares a quem lhe respondera apenas com muchochos.

- Vocês me desculpem, mas meu namorado é muito sensível. Adora um drama - disse a mulher, empunhando alguma coisa da Bette Davis.

Pagou e foi embora, na direção oposta do homem de quem partira o coração.


postado pelo seu candidato às 20:43 |


wSábado, Novembro 04, 2006


Queria saber como definiram a ordem das letras no teclado.

***


Genivaldo não é um nome, é uma praga. Até hoje, não conheci xará que não fosse porteiro ou pedreiro. Por isso, agradeço a Deus todos os dias por ser datilógrafo. Na maior parte do tempo, não tenho trauma por isso. É, pelo menos, uma boa profissão para se conhecer mulheres. Como se elas se importassem em me conhecer.

Não tive a melhor das infâncias. Genivaldo, no colégio, vira Geni. Joga pedra no Geni, ele é feito pra apanhar, ele é bom de cuspir. Nunca vi crianças para conhecerem tão bem a música do Chico como meus amigos na escola. Era sempre o que levava montinho, o que ficava pra trás na hora de tocar campainha e sair correndo, essas brincadeiras de moleque. Ouvi uns esporros, descabelei minha mãe, mas sobrevivi, e parte da minha auto-estima sobreviveu aos poucos amigos e à abstinência que cultivei durante a adolescência.

Estou em minha segunda namorada. A primeira durou o quê? Nove meses? Por aí. Lorena, uma atriz, ruivinha, até que em forma, e muito performática. É mal da profissão. Nunca a vi atuando, embora, durante o namoro, ela tivesse feito duas peças. Mas não devia ser boa atriz, porque adorava dizer que estava investindo na carreira musical. Entenda essa expressão da seguinte forma: Lorena cantava sempre que estava respirando, e de meia em meia hora abria os braços extasiada e gritava que a música era a vida dela. Já estava ficando meio puto, quando ela resolveu piorar cantando durante o sexo. Ia de Milton Nascimento a Tribalistas, mas, não importa o repertório, ficava invariavelmente desconcentrado. Vai gozar ouvindo Rouxinol. Vai gozar ouvindo Velha infância. Um dia, enlouquecido com aquela voz aguda, com aquela criatura que não sabe ao que se dedica, à boca ou à perseguida, gritei: porra, parece que tô trepando com um canário. Me olhou com raiva - por um momento achei que fosse me dar um tapa, mas não bateu - e foi embora, sem gozar ou dizer adeus.

Fiquei um longo e tenebroso biênio sem comer ninguém. O jejum acabou na festa de um amigo de amigo, quando conheci Dalva. Com esse nome, só podia ser secretária. Ficamos algum tempo conversando sobre nossas profissões. Não muito, porque não há nada de excitante em ser datilógrafo ou secretária. Já entrávamos naquele vazio constrangedor quando ela falou, mais pra dentro do que pra mim:

- Queria saber como é que foi definido o lugar de cada letra no teclado.

Mirei espantado aqueles olhos amendoados, que confessaram uma dúvida que, por 25 anos, achei ter sido só minha. Vi a inocência sincera de Dalva, aquele jeitinho indeciso de quem sabe encantar, e pensei: acho que essa aí eu consigo pegar.

Estou até hoje com ela. Dalva nunca canta, posso até broxar sem ter medo de ouvir a sonata de Beethoven. Mas ela morde e, volta e meia, no meio dos amassos, deixa a mão cair pesadamente nas minhas costas. Lembro do Geni que era no colégio e não gosto. Sinto vontade de largá-la. Não posso fazer isso. Quantas ficariam com um Genivaldo?

Não perdi a mania de entrar em salas de bate-papo. Mas, agora que sou adulto, extravago minhas ironias em íntimos desconhecidos. Antes tinha apelidos que remetiam à virilidade. Agora, sou simplesmente Texugo.

(23:10:20) Texugo (reservadamente) fala para lele-msn: oi, quer tc?
(23:16:43) lele-msn (reservadamente) fala para Texugo: ???

Esta era geralmente a resposta. Um dia, uma delas me perguntou o que era texugo. Respondi, e por oito minutos não recebi sinal de vida. Quando já dava a nova amiga como perdida, ela me responde que não quer mais conversar, porque certamente um texugo doeria muito. Fiquei dois dias me divertindo, pensando onde a garota teria imaginado o texugo. Nem as mordidas de Dalva doíam quando ria sozinho com minhas sacanagens. Resolvi procurar a lele novamente.

(00:18:25) Texugo indolor entra na sala...

Mas nunca mais a encontrei.


postado pelo seu candidato às 14:33 |


wSegunda-feira, Agosto 14, 2006


Washington do Carmo já viu o mundo acabar três vezes. Largou a vida sem perspectivas no interior da Bahia pelo trabalho de pedreiro no Rio das Pedras, em Jacarepaguá. Uma enchente destruiu seu barranco, obrigando-o a, mais uma vez, começar do zero. No Dia dos Pais, Washington, pai de sete filhos, viu tudo mudar pela terceira vez.

Teve dez minutos entre o início do fogo e a rua principal, para onde carregou as crianças e a TV que assistia antes do incêndio. Roupas, só as do corpo. O pedreiro correu entre os becos carbonizados e fiações desmanchadas pelo fogo com a experiência de quem vive há 18 anos no Rio das Pedras. Não pensou em nada. Deixou os medos da morte para a mulher, que corria logo atrás, e outras 400 famílias.

No dia seguinte ao incêndio, moradores andavam desolados pelos escombros e contavam que nem tudo queimou no conjunto Areal II. Muito do que sumiu - dinheiro, aparelhos eletrônicos e comida - foi saqueado por quem encontrou as casas quase destruídas.

- Eu tenho um sapato pra te dar, mas é 38. Não sei se cabe nas suas crianças. Serve?

A voluntária está quase ajoelhada em frente à Washington, que descansa em seu novo lar: um colchão sob a lona de circo, a 200 metros do antigo barraco. Washington agradece pelos calçados. Desde a madrugada, quando se alojou naquele gramado, já ganhou comida, roupas, travesseiro e cobertores. É o início de sua nova casa.

- Não adianta voltar para o Nordeste. Vim ao Rio atrás de estabilidade. Já perdi tudo antes e consegui me reerguer. Agora vou fazer o mesmo.

Washington conseguiu folga no trabalho. Na mente ociosa, o jejum de mais de 16 horas parece ainda maior. A alguns metros, o pastor de uma igreja local prepara dois panelões de sopa de legumes com carne moída. No jantar, o cardápio será o mesmo.

Os filhos, como boa parte das crianças do Rio das Pedras, não foram à escola e estão à sombra da lona brincando com o pai. Do outro lado da rua, perto de onde tudo terminou, outros meninos misturam-se com adultos e, para desespero dos funcionários da Light, roubam os fios arrancados da fiação irregular. Correm descalços no chão quente procurando os pais e pensando no dinheiro que virá com o cobre. No Rio das Pedras, de calor impassível e inúteis cordões de isolamento, a vida sempre recomeça.


postado pelo seu candidato às 23:02 |


wDomingo, Julho 30, 2006


Um cara: Oi, tudo bem?
Menina: Oi.
Um cara: Vi que você tava olhando pra lá e resolvi chegar aqui e te cumprimentar.
Menina: Na verdade eu tava olhando pro seu amigo, aquele ali de verde, mas pode ser você.
Um cara: ...
Menina: Olha só, nós estamos fazendo isso por causa daquele loiro ali, ó.
Um cara: Nós?
Menina: Isso. Sempre que ele olhar pra cá, você me beija. Mas só quando ele olhar, tá? No resto do tempo, a gente dança separado.
Um cara: Você podia pelo menos fingir que não está me usando, né?
Menina: Prefere que eu chame seu amigo?
Um cara: Não, pode deixar, eu tô bem.
Menina: ...
Um cara: Festinha brega, né?
Menina: ...
Um cara: Sei lá, nada a ver fazer revival dos anos 90, agora. E olha só isso. Fat Family. Ninguém merece.
Menina: Vem cá, vem cá, ele tá olhando!

Bicota.

Um cara: Você quer que ele sinta ciúmes, é isso?
Menina: É... por quê?
Um cara: Por nada... mas beijando assim, vai ser difícil.
Menina: Ô garoto, você tá falando que eu beijo mal?
Um cara: Não sei, primeiro tem que abrir a boca pra eu saber.
Menina: Como assim?
Um cara: A gente parecia irmão se beijando.
Menina: Ó, não tenta abusar da minha situação, tá?
Um cara: Quem, eu?
Menina: Olha aí, de novo, de novo!

Bicota prolongada.

Um cara: Bateu na trave, agora.
Menina: Vem cá, você é BV?
Um cara: Eu não, pô. É que você não pára de dançar, como é que eu vou acertar a boca?
Menina: Ele tem que notar que eu estou feliz.
Um cara: Então bota a língua pra fora, porra.
Menina: Olha como fala comigo, seu grosso.
Um cara: Ah, vai pra merda.
Menina: Tá reclamando do quê? Já pode falar que pegou alguém. Não é pra isso que você veio aqui? Aliás, você bem que podia ajudar, né?
Um cara: Ajudar como?
Menina: Ah, me dando alguma dica... shh, ele tá vindo pra cá!

Menina: Ô baby, dance dance dance, vem mexendo assim, não pare, pare, pare...
Loiro: Oi, tudo bem?
Menina: Oi... tudo!!
Loiro: Você pode me dizer a hora?
Menina: Ah... posso... deixa eu ver aqui.
Loiro: Seu celular é igual ao meu.
Menina: Quer ver se o número é o mesmo?
Loiro: Oi??
Menina: Nada. São duas e vinte.
Loiro: Tá bom, brigado!

Menina: E você, pára de rir.
Um cara: Esse cara é gay, com certeza.
Menina: Você acha? Por quê?
Um cara: Sei lá, tem pinta. Só achei estranho ele te perguntar a hora, se ele podia ver no celular dele.
Menina: Será que o celular dele não está sem bateria?
Um cara: Pode ser. Mas também pode ser uma cantada.
Menina: Você acha que eu devia chegar nele?
Um cara: Vai lá, né. Tô vendo que aqui não rende.

Nova bicota prolongada.

Um cara: Pô, agora você me pegou desprevenido. Mas valeu a intenção.
Menina: Pra onde ele foi?
Um cara: Acho que ele foi pra... ih, caralho!
Menina: Aquele ali não é seu amigo?
Um cara: Aquele ali não é seu loiro?
Menina: ...
Um cara: ...
Menina: Tequila?
Um cara: Tequila é uma boa.

postado pelo seu candidato às 15:52 |


wDomingo, Junho 25, 2006


O Fluminense

Tempo sem fotografias e pessoas de passagem
Tramas que aumentam ao pé do ouvido
Decadência em forma física
e sem revestimentos no banco traseiro do carro
Pioneiro de uma época sem heróis
mas repleta de aprendizes que pagam para ver

Euforias em forma de chopes
sanduíches do Diego
conversas enfumaçadas no corredor
planos cozidos em panelinhas
O futuro melhor e mais bem pago logo à frente
eclipsado pelo próprio fechamento
pela ligação que puxa de volta à realidade
pelo chão que afunda e denuncia estranhos

Tantos rostos que mal ganharam formas
antes de sermos apresentados às costas

Não me entendam. Achei essas frases jogadas na última página do meu bloco. Saudades daquele jornal-espelunca :-)


postado pelo seu candidato às 01:01 |


wDomingo, Maio 28, 2006


Se quiser cair no mundo
Ou tentar morrer de amores
Precipite-se

Não existe lugar para nós dois. Movemo-nos acotovelando o ordinário. Todos os corredores são estreitos para que a diferença não possa passar. Poços e poças enfeiam o caminho de quem não quer seguir trilhas. E os passivos, esses de olhos ocos e costas fatigadas, escravos da ordem cega e de uma vida sem paixões, esses, querida, venderão nossas almas logo depois de nos dar um sorriso afável. Não ouça música que não venha de você. Contra seu amor não há venenos, disse-me-disses, teorias de gaveta ou certo e errado. Foda-se o certo e o errado. Estamos além de maniqueísmos, somos profetas da nova ordem, os anjos que anunciam o apocalipse. Dê-me beijos hereges, apunhale-me com o que não deve ser dito. Não vamos contra a corrente, pois inventamos uma nova, onde o medo é indefinível, por ser inexistente. Afunde a geometria, este mundo de quadrados e triângulos, e abra as portas ao abstrato, afunde-se dentro do que vale a pena.

Por isso
Só disso
Manifesto


postado pelo seu candidato às 14:45 |


wSegunda-feira, Maio 15, 2006


Era um desses bairros de classe média, em que as tardes modorrentas são preenchidas por vassouras e compenetradas máquinas de lavar. Os donos dos apartamentos estão no Centro; alguns peregrinam em suas casas fugindo do tédio e do aspirador, enquanto bocejam com a reprise da novela exibida pela Globo seis meses atrás. Os ponteiros do relógio na parede hesitam em mover-se, como se o tique-taque fosse um desrespeito ao silêncio litúrgico de vidas cheias de hiatos. Só Beth corta o ar parado, as sandálias resolutas em direção à varanda, vestido manchado por duas ou três lágrimas que não sabem a que vieram. Choraminga alguma coisa difícil de entender, mas que chega aos ouvidos dos vizinhos, todos ansiosos para mais um espetáculo.

Agarrada a uma pilastra, Beth tremula sobre o parapeito de sua varanda. Quatro andares a separam de um fim trágico. Jorge Augusto, enfim, entra em cena. Balbucia frases freitas e, fiel ao seu tique, abre e fecha as mãos esticadas, como se pedisse ajuda para entender as lamúrias da esposa nervosa.

- Alá, ó! Alá!, aponta Joana, diarista do prédio da frente, espectadora fiel dos escândalos alheios. Aqueles não atraídos pelos urros de Beth, a voz de fígaro da doméstica tratava de seduzir. Sorridente, desfiava comentários à platéia animada, que só faltava aplaudir a locutora oficial dos pesadelos matrimoniais.

- Dá um sapato novo pra madame! Dá sapato!, gritava. Lembrou à Maria, empregada do vizinho, que, da última vez, Beth só desistiu do suicídio ao ganhar um microondas. Em outra ocasião, um vestido - logo este vermelho com que tentava se matar.

Jorge Augusto e Beth, indiferentes à multidão, continuavam encenando o drama. Esta era a parte em que Beth balançava insistentemente a cabeça, tapando os olhos com os cabelos cacheados, enquanto o marido a oferecia qualquer coisa pra sair dali. Pipocava a lista de mimos com súplicas, pelo-amor-de-Deuses e seu vocativo preferido, "ternura". Era o auge para a vizinhança, o bordão de programa humorístico, o ápice da gargalhada de Joana. "Ternuraaaa, ternuraaa!", repetiam.

- Não dá nada não, ela te trai! Ela te faz de corno manso!, berrava a diarista, aumentando as futricas de patroas e moças de avental. Os homens ensaiavam um coro. Queriam uma resposta viril - porrada, porrada, porrada.

Jorge Augusto, autista aos deboches, promete de joelhos mundo novo, atenção, as Casas Bahia, tudo à musa escandalosa. Beth, enfim, concorda em desistir do atentado, o rosto já seco com as juras consumistas. Os prédios ao redor lamentam o fim do drama. O casal desaparece atrás das cortinas de veludo, que anunciam o início da sala de estar. Joana, ainda sorrindo, vai varrer a copa.


postado pelo seu candidato às 22:42 |


wQuinta-feira, Abril 27, 2006


- E agora?
- Agora é só clicar duas vezes sobre o nick dela e começar a falar.
- Sobre quem?
- Sobre o nick. Nick é o apelido.
- Ah bom, pensei que era um cara.
- Não, Beto. Se liga... essa menina é bem mais nova que você, então você tem que parecer moderninho, entendeu?
- Entendi.
- Nada de ficar teclando bonitinho, de demorar procurando a letra. Tem que ser rápido. Pá, pum.
- Pá, pum. Entendi.
- Conforme você for escrevendo, eu vou dizendo as siglas. Aí, ela já começou a falar com você.
- Ah, é essa janelinha aqui brilhando?
- Isso. Põe o mouse aí embaixo pra gente começar a falar.
- A setinha?
- É. Põe ela aqui.
- "Oi, tê dê bê éle zê". Marco, não entendi nada.
- É "Oi, tudo beleza?"
- Ah. bê éle zê é beleza? Como é que eu respondo? Tê dê?
- Tê dê ou tê bê, tanto faz.
- Tê bê por quê?
- Tê bê é também. Aí ou você põe tê bê ou bê éle zê. De qualquer forma, tá tudo bê éle zê pra você também, entendeu?
- Ih, tem uma sigla que a minha filha ensinou que eu posso usar também, e que parece mistura disso. Tê dê bê.
- Tê dê bê?
- Tudo de bom.
- Ah, Marco. Tê dê bê não. Sigla de boiola.
- É?
- É, boiola. Manda logo um tê dê. Põe também um "e vê cê?"
- Vê cê é você?
- Isso.
- Pronto. Aí, ela já respondeu. "Nun cá stive tão bem"
- Nunca estive tão bem.
- Eu sei, essa não é difícil. Mas como é que eu ponho olhar cético?
- Olhar cético?
- É. Só pra provocar. Aí já serve pra puxar assunto e saber por que ela nunca esteve tão bem.
- Ah, tá. É "o" minúsculo e "O" maiúsculo, sem espaço.
- Bolinha bolão?
- Isso. Esse é o "olhar boladão". Ih, caramba.
- Quê?
- Você esbarrou em outra letra. Ficou bolinha, "i", bolinha. Ih, cacete.
- Quê? Que que tem, Marco?
- Pô, cara. Olha esse desenho. oio. Não te lembra nada?
- Não, que que tem que lembrar?
- Você acabou de mostrar o cacete pra menina.
- Eu?? Por quê?
- Olha isso. Testículo, pinto, testículo. E pior.
- Pior por quê?
- Assumiu que tem pinto pequeno. Se tivesse grande, o "i" seria maiúsculo.
- Ih, cacete.
- Cacete mesmo. Olha aí, ela respondeu.
- "Vê tê êne cê".
- Vai tomar naquele lugar.
- Vai você!
- Não, não fui eu. Foi isso que ela escreveu, é a sigla.
- Mas que menina é essa, que mal me conhece e já me manda praquele lugar?
- Pudera, né, Beto. Você sai por aí mostrando o cacete.
- Porra, nunca pensei que tivesse sigla pra isso.
- Pois é, e agora nem tenta consertar. Ela já teve ter fechado a janela e te bloqueado. Perdeu.
- Não dá nem pra mandar o olhar boladão?
- Acho que não, cara. Mas você foi bem, você foi bem. Da próxima vez, fica mais esperto.
- Pata que pariu, filha da pemba...
- Pê quê pê, éfe dê pê.
- Que isso?
- "Pata que pariu, filha da pemba"
- Ah... posso praticar mandando pra esse cara?
- Pode, ué. Tem que abrir a janelinha. Clica duas vezes no nick.
- Em quem?
- Porra...


postado pelo seu candidato às 14:18 |


wSábado, Abril 15, 2006


Ajeitava a toalha multicolorida com cuidado, no centro um chapéu a postos para qualquer troco. O saxofone balançava perto de seu peito murcho. À mesma altura, nas costas, o cabelo rastafari, primeira visão de quem descia aqueles três ou quatro degraus, provocava a surda indignação de uma senhorinha. Virou-se para mim, chicoteando as trancinhas para trás, o sorriso levantando os óculos escuros.

Saudou-me como a um velho amigo. Desarmei a caneta, presa nas espirais do bloquinho, e sentei-me em frente ao seu escritório improvisado no chão de pedra. Não sei se foram os gritos de boas-vindas ou os primeiros acordes, mas logo vieram dois caras e três chopes, a bebida sobressalente servida ao meu entrevistado. Bebericou moleque e exaltou os companheiros. "Esses aí são foda!". Aproveitei quando chegou mais perto, talvez para endireitar o chapéu, e perguntei o nome dos amigos de copo. "Cê sabe que eu não sei?", sussurrou.

Logo a dupla sumiu entre as barraquinhas. "O que você quer saber?". Tudo. Indaguei sobre as idas ao Jô Soares (três, ao todo), o saxofone (presente do Gordo), onde morava (na Senador Câmara), quanto ganhava (nem a mulher dele sabe). Era um personagem para a matéria do centenário da Rio Branco. Envaideceu-se por representar a avenida, disse que ela ficou mais bonita com sua presença.

Entre uma e outra resposta, levantava os dedos e puxava notas. Tinha uma melodia para as gostosas. Sempre que uma passava, atacava de A pantera cor de rosa. Não era muito seletivo. Uma cinqüentona de ancas generosas ganhou Your latest trick, emendada por dentes amarelos e orgulhosos: "É Daire Strêits".

Também contava causos.

- Sabia que eu conheci o Tim Maia?
- Ah, é?
- É. Um dia ele foi gravar e eu tava no estúdio do lado. Ele foi até mim e perguntou: "Cê fuma?". Aí eu: "Fumo". Aí ele: "Me empresta a seda?"
- Ah.
- Até gravou comigo.
- Ah.

Cesar Maia encabeça sua lista negra. Andou com o então candidato a prefeito do Leme ao Leblon e não ganhou um puto sequer. Reclamou da violência, que espanta seus admiradores. Quem dá dinheiro pra sua música já vem com as moedinhas na mão, com medo de parar e ser assaltado. Falou muito e me perguntou o que mais queria saber.

Nada. Guardo a caneta entre os espirais do bloquinho, aperto a mão áspera e desapareço entre a multidão das cinco horas. Ando até o Theatro Municipal e, enquanto espero um táxi, penso em quanto daquela conversa vai entrar na matéria.

Jornalismo é cortar pessoas. Entre toques e tesouras, sobram apenas dramas.

Devia, ao menos, ter pedido um chope.


postado pelo seu candidato às 18:55 |


wSexta-feira, Março 03, 2006


A vida é uma sucessão de amores. Mamãe, Xuxa, a babá Julie Andrews, Penélope Charmosa, Jéssica Rabbit e outras tantas de fases menos inocentes. Além das musas que surgem em frente às câmeras, há uma dinastia que faz parte de meu cotidiano, coleguinhas de estudos, redações e bebedeiras. Por algumas ruminei amores platônicos, mas a maioria dos casos perdidos vem das estranhas, as que entram em meu mundo por segundos fugazes, mas suficientes para eternidades de queixo caído.

Em tudo há poesia. Nas entrelinhas de discursos decorados, nos sorrisos maiores do que pede o convencional, nos gestos inseguros do doce perder de pose. O modo como afastam a mecha de cabelos para trás da orelha, o rebolado que hesita diante do gracejo. Pequenas rupturas que me fizeram entronar rainhas sem nome. A atendente do McDonald's que me perguntou se gostaria de aumentar a batata por um real, a telefonista da Cerj confortando-me com a promessa de que logo haveria uma equipe da companhia em minha rua.

A mais recente é a moça da cabine 12 da Ponte Rio-Niterói, mulata como manda os sambas, a voz cheia de gingas que me saúda com um "olá" aberto, com todos os acentos agudos que cabem na minha imaginação. Deixei de pagar a quantia exata para olhá-la por mais momentos, enquanto moedas gastas desfilam em suas mãos. Vou pegar em seus dedos ágeis e fazê-la flutuar até o banco do carona. Uma fuga para metros adiante, para namoricos em frente aos flamingos que repousam nas bostas do estaleiro Mauá. Em tudo há poesia, lembra-se? E vou embora três reais e vinte centavos mais pobre, ansioso pela próxima volta à minha cidade, certo de que só eu sou dono daquele "olá" cheio de dentes e carente de entendedores. É ela minha algo-mais, até as curvas da Ponte ou da vida me levarem a um novo coração anônimo. Vou voluvindo.


postado pelo seu candidato às 23:19 |